Você não perde por espiar

Depois de quase duas décadas ouvindo o Pedro Bial e sua sabedoria, passamos, talvez, a duvidar  de suas palavras que, nesse mundo de ideias difusas e confusas, misturam história e propaganda. Não podemos afirmar que foi uma junção consciente, mas se você já ouviu a frase “você não perde por espiar” vai entender agora sobre o que estamos falando.

Espionagem de guerra

Houve muito tempo atrás, um general chamado Sun Tzu, famoso por ter escrito também o livro A  Arte da Guerra, livro que curiosamente alavancou vendas no Brasil após suas aparições no programa apresentado por esse tal Pedro Bial. Sun Tzu afirmava que um bom sistema de espionagem era “o maior tesouro de qualquer governante”. Hoje, para muitos, o termo espionagem é apenas uma trama de filme, ou noutras circunstâncias dá se outros títulos que vão cada vez mais se fundindo como controle, monitoramento ou vigilância.

O livro de Sun Tzu foi escrito por volta do século IV a. C., tendo em vista ser um tratado sobre estratégias militares necessárias à um combate racional. Supõem-se que tal escrito influenciou outros estrategistas militares como Napoleão e Mao Tse Tung, mas muito longe desses tempos, o livro vem influenciando um mundo no qual as conquistas não andam em par com a força armada. Migrando da estante dos militares o livro foi parar nas mãos dos economistas, administradores, publicitário, até mesmo heróis de reality shows, e se você acessar este link irá encontrar um relato no qual diz que A Arte da Guerra também ensina a fazer campanhas para Google Adwords.

Embora o grande renome do livro de Sun Tzu não faltam passagens históricas que apontem para uma sociedade da informação muito mais antiga do que poderíamos supor. Michael Rank no livro Espiões, Espionagem e Operações secretas descreve o encontro do Imperador Adriano, no século II, com um coletor de trigo e diante da sua necessidade de controle e viagens surge a ideia de usar o coletor e seus colegas para coletar informações nas mais variadas regiões. Rank chama a atenção para a possibilidade desse encontro nunca ter acontecido como nesse relato, mas dada a plausividade da paranoia dos imperadores romanos com conspirações, dá-se dessa história o surgimento da primeira rede de espionagem do império romano, rede que ficou conhecida depois como Frumentarii.

Não foram poucos aqueles que notaram a necessidade de informação para controlar seus impérios e anteceder inimigos, não importando, muitas vezes, o medo advindo dessa pratica, ainda chamadas aqui de espionagem. Delumeau trás uma passagem de um ensaio de Montaigne no qual aborda a capacidade, já italiana, de prever o perigo.

Um senhor italiano, relata ele sorrindo, sustentou uma vez esta afirmação em minha presença, em detrimento de sua nação: que a sutileza dos Italianos e a vivacidade de suas concepções era tão grande, previam de tão longe os perigos e acidentes que lhe pudessem advir que não se devia achar estranho se eram vistos frequentemente, na guerra, prover sua segurança, até mesmo antes de ter reconhecido o perigo; que nós e os espanhóis, que éramos tão finos, íamos mais além, é que nós era necessário fazer ver ao olho e tocar com a mão o perigo antes de nos amedrontarmos e que então não tínhamos mais firmeza; mas que os alemães e os suíços, mais grosseiros e mais pesadões, não tinham o senso de se precaver, quando muito no momento mesmo em que estavam abatidos sobre o golpe.

Evidente é, como nos afirmam os livros de história, a importância de Roma para outras e futuras nações, tanto ocidentais como orientais. Propiciada também por essa civilização, a Igreja Católica foi e ainda é uma das instituições com grande poder de informações, muitas quais se transformam em rumores sem chance de verificação. Ainda assim Eric Frattini publica o livro Santa Aliança: cinco séculos de espionagem no Vaticano, no qual aborda ter surgido no Vaticano o mais antigo serviço de inteligência governamental, em 1566, nominado Santa Aliança. Mesmo a par das poucas informações sobre o órgão, André Luiz Woloszyn, analista de Assuntos estratégicos, defende que “quem possui arquivos secretos desde o século XVI certamente também necessita de um serviço de inteligência, especialmente em um Estado independente, como é considerado o Vaticano, que participa do jogo do poder e das intrigas internacionais tanto quanto as grandes potências mundiais”. Woloszyn também é escritor, tendo publicado o livro chamado Guerras das Sombras no qual discorre sobre os bastidores de muitos serviços secretos.

Os códigos secretos

Nessas guerras históricas, silenciosas ou não por informação, cresceu, além da necessidade de obter, a necessidade de segredar as informações que eram obtidas exteriormente ou pertencentes à um repertório interno, como os planos de guerra, locais estratégicos, etc. Pensando dessa maneira, antigos já utilizavam de técnicas para manterem e enviarem suas mensagens seguramente, entre muitas técnicas utilizadas a mais famosa é a, como conhecemos hoje, criptografia, e em segundo lugar não sendo conhecida assim por muitos, mas de grande senso comum, a esteganografia.

Começando pela segunda, a esteganografia é a técnica, ou o conjunto delas, de obscurantismo de uma mensagem, tal como esconde-la de alguma forma para passar despercebida. Há relatos desse uso ainda na Grécia antiga, mensagens tatuadas na cabeça de escravos escondidas pelo crescimento dos cabelos foram descritas por Heródoto. Uma vez que tal método se faz parecer de difícil compreensão para os dias atuais, vale ressaltar que à luz da época não existiam meios de transporte como os conhecemos no nosso cotidiano, sendo comum o descolamento por períodos extenso como meses ou até mesmo anos, e em decorrência disso as mudanças corporais, dentre elas, o crescimento dos cabelos.

Já quando falamos de criptografia é possível que em algum momento você já tenha ouvido falar, mesmo que corriqueiramente, pois é assunto comum quando se trata de trafego de dados em redes digitais. A criptografia é o nome dado à técnica de substituição da mensagem por um código que pode, ou não, à partir de uma chave de “tradução”, ser traduzido novamente para a mensagem original. Imagine uma mensagem escrita em português brasileiro que você não queria que seu amigo que não lê em russo tenha conhecimento, então você a escreve em russo e passa para o seu destinatário que previamente deve saber ler em russo ou saber que você escreveria assim para que ele possa buscar a tradução, neste caso a chave usada na codificação é o idioma russo. Nos casos de dispositivos eletrônicos a criptografia se faz por códigos que necessariamente não são lógicos aos olhos humanos, mas a criptografia é tão velha como a espionagem, tendo ainda em Roma exemplos com a cifra de César que era usada para “bagunçar” mensagens que pudessem cair em mãos inimigas. Outro exemplo é a cifra Atbash que utiliza um rearranjamento similar ao da cifra de César no alfabeto hebraico, tendo sido criada por volta de 600 a.C.

Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, essas técnicas foram decisivas para o futuro da humanidade. Moniz Bandeira, um cientista político brasileiro, propõem que os norte-americanos inventaram um método de interceptação e decifração de códigos antes mesmo da Segunda Guerra, chamado de  Signals Intelligence Service (SIS) e que com ele foram capazes de prever o ataque a Pearl Harbor, contradizendo a ideia de que a entrada dos EUA na Segunda Guerra foi uma surpresa para eles.

Embora o alarde contraditório que se deu nos Estados Unidos, não foi a única potencia a ter grandes inventos. O engenheiro alemão Arthur Scherbius foi o inventor de uma das máquinas que aterrorizou a força aliada na Segunda Guerra, a máquina Enigma. Posterior a sua criação e lançamento de algumas novas versões ainda para cifrar mensagens comerciais o exercito alemão compra alguns exemplares e reutiliza da tecnologia para seus fins. Com ela, as mensagens encriptadas podiam chegar a margem dos seis sextilhões de código, que é o mesmo que 6.000×1.0006 em notação exponencial, ou  6.000.000.000.000.000.000.000, por extenso.

Espionagem consentida? Esse mundo hoje

Os Estados ainda provem formas de controle para controlar as sociedades, cada dia mais acentuadas, o malefício se dá na falta de privacidade e anonimato do cidadão, as benesses são entorno da segurança social, como exemplo existe a vigilância sanitária dentre outras.O que temos hoje não é mais o interesse somente do Estado, que se já não é tão forte, ainda não é mínimo, mas sim de diversas instituições e empresas que nos oferecem serviços e produtos à todo o tempo e em todo lugar. Empresas tais como Facebook, Google, Amazon, mas também, estados nações como os EUA.

Alega-se a internet um poderio democrático para as pessoas, a capacidade de fala e escuta não propiciada pelas mídias difusoras como o rádio e a TV, ainda em Santaella. A internet vai se encaixar no que a autora chama da geração das mídias de acesso e conexão contínua, que pode ser interpretada nos dispositivos móveis. Essa nova possíbilidade de comunicação cria nossas situações de controle, monitoramento, vigilância e consequentemente, de espionagem.

Ainda como estratégia de guerra, a informação é nova arma seja na guerra entre nações ou entre marcas, mas nessa guerra os indivíduos perdem em direitos e seguranças, apesar de toda a possibilidade de comunicação e locomoção. Fatores como esses parecem estar em conflito, mas ainda de forma proporcional, o que não passaria de uma falácia. Analisando superficialmente o que são chamados de servidores raiz, que são servidores essenciais para a Word Wide Web como conhecemos hoje e que existem apenas 13 em todo o mundo, 10 deles são de posse dos Estados Unidos e dentre esses 10 a maioria pertence a unidades governamentais.

Pensar na idoneidade moral dessa nação não é aconselhável segundo a experiência internacional, como numa cadeia lógica baseada nos fatos semelhantes já acontecidos, se os Estados Unidos podem fazer alguma coisa, geralmente eles a fazem. O caso mais recente que chocou o mundo foi a declaração de Edward Snowden sobre o monitoramento mantido por esta nação sobre outras entidades governamentais, pessoas e empresas. Uma pergunta, monitoramento sem consentimento é espionagem?

Talvez a resposta do próprio país de Snowden possa dar luz a essa pergunta. Contrapondo o vazamento das informações por Edward Snowden, os EUA podem julga-lo por espionagem e condena-lo a prisão perpetua caso retorne a solo estadunidense. Em outras palavras é a máxima “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, mas também faz parecer uma questão de de poder, mas só parece, afinal quem poderia julgar e “prender” os Estados Unidos por espionagem?

Assim também acontecem nas empresas já citais acima, com a diferença que nelas, nós, os próprios usuários fornecemos as informações sobre nossa vidas, desde documentos a mais cotidiana das ações como escovar os dentes, e o que fazem com essas informações não é divulgado ao público usuário.

O mais novo lançamento “zombeteiro” estadunidense, Velozes e Furiosos 7, apresenta a possibilidade de um software chamado The God’s Eye (O olho de deus), que pode entrar em qualquer sistema comunicacional que utilize sinal compartilhado, em qualquer rede, telefone ou computador a fim de rastrear pessoas. Duvidar que algo na escala do software apresentado no filme já existe fica cada vez mais difícil diante dos novos casos de espionagem e dos novos aplicativos lançados por grandes empresas como a Google, como o já desativado Google Latitude.

Por fim, fechando nosso artigo da semana, a empresa holandesa Endemol ganhou muito dinheiro com a produção do reality show que foi transmitido na Globo com a apresentação de Pedro Bial, e embora possa ser divertido “vigiar” aqueles “heróis estrategistas” confinados numa casa, George Orwell já havia dado a alcunha ao seu personagem vigilante que tudo sabe e tu vê, no seu romance em 1984. Poderia ser aterrorizante pensar que em vez de numa casa fecha, em vez de pessoas selecionadas, quem está sendo “espiado” é você, aí onde você estiver, invisível e silenciosamente como este nome que não foi escrito aqui, mas que você já deve saber do que estamos falando.

The Big Brother

DELUMEAU, J. “Heresia e ordem social”. In: História do Medo no Ocidente. SP: Companhia das Letras, 1989.

LEMOS, André. MÍDIAS LOCATIVAS E VIGILÂNCIA: sujeito inseguro, bolhas digitais, paredes virtuais e territórios informacionais. “Vigilância, segurança e controle social.”. PUCRJ. Curitiba. Brasil. 4-6 de março de 2009.

MELGAÇO, Lucas. Somos todos pequenos “Big Brothers”. Publicado em 11 de novembro de 2014

SANTAELLA, Lúcia. Cultura das mídias. São Paulo: Experimento, 1996.

SOBRINHO, Sergio Francisco Carlos Graziano. Globalização e sociedade de controle: cultura do medo e
o mercado da violência / Sergio Francisco Carlos Graziano Sobrinho; orientador: João Ricardo Dornelles –
Rio de Janeiro: PUC; Departamento de Direito, 2007.

WERTHIN, Jorge. A sociedade da informação e seus desafios  Ci. Inf., Brasília, v. 29, n. 2, p. 71-77, maio/ago. 2000


Polegarzinha: Um breve comentário.

Não, não se trata da história da menina que tinha o tamanho de um dedo polegar.

Michel Serres – O filósofo entusiasta

“Polegarzinha” é um livro do Michel Serres, filósofo, professor de Stanford e membro da Academia francesa desde 1990. O livro é originário de um discurso do mesmo em 2011 à Academia Francesa e trata da nova geração, sua relação com as mídias, e a nova configuração da sociedade construida nesse contexto por esses novos homens e mulheres que são carinhosamente chamados de polegarzinhos. O apelido vem do uso dos celulares, smartphones, e teclados que caracterizam uma geração que como diz o próprio autor, “vive uma outra história”, “não fala mais a mesma língua”, “não tem mais a mesma cabeça” e “não habita o mesmo espaço” que os seus ancestrais.

Ao ler Polegarzinha, é difícil não achar que esse simpático senhor é um verdadeiro entusiasta. A forma como descreve as ações da nova geração, se assemelha a de um avô que observa as potencialidades do seu netinho e fica simplesmente encantado com isso, achando maravilhoso que o pequeno possa ser muito mais do que aquilo que ele pensou. (Por isso, algumas pessoas acham que o Serres é frustrado com sua própria geração, mais “limitada” que a atual. Apesar desse pensamento existir, é claro no texto que o autor mostra que houve uma mudança estrutural da sociedade, algo mais próximo ao que Henry Jenkins fala sobre a convergência).

Michel Serres fala sobre jovens que não tem a mesma relação com os acontecimentos nem com as mídias antigas como tinham as gerações passadas. A forma de pensar (em relação a imaginação, raciocínio, pensamento político, etc) difere muito do que acontecia há decadas. Apesar de as mídias digitais trazerem em si características das mídias precedentes, elas tem uma configuração própria que modificou a nossa maneira de consumir informação, de lidar com o aparelho, de seguir mentalmente uma linha de pensamento. Temos diante de nós, em rede, um sistema praticamente cerebral (no sentido de processamento, memória, imaginação) muito mais potente que o nosso. A criação da polegarzinha está na combinação das informações que são adquiridas na rede – uma vez que a informação não está mais concentrada em centros nem em espaços físicos, mas está dispersa no ciberespaço. No livro, é feita uma analogia entre a Polegarzinha e o São Dinis de Paris, bispo que foi canonizado porque, após seu martírio por degolamento, ele levantou-se (diz a tradição) e continuou caminhando, até chegar à sua igreja, onde morreu. A cabeça da polegarzinha estaria então em um sistema fora dela, em rede, e a ela caberia processar as informações.

J.A.R.V.I.S, em Os Vingadores 2 – A Era de Ultron, é uma inteligencia artificial, um software complexo (por ter inúmeras instruções inscritas nele). É uma cabeça de Polegarzinha.

Além das mudanças em relação aos meios de comunicação e ao ensino, temos também as mudanças da sociedade de “Polegarzinhos”. Se trata de uma estrutura com um menor grau de hierarquização, na qual todos os lados tem direito de opinar para a melhoria dos serviços (aliás, é bom lembrar que a Polegarzinha já nasceu em um tempo em que esse setor, o de serviços, já havia crescido na economia, e não mais os setores primário e secundário como há decadas). É também nessa sociedade que os valores sustentáveis (menos danosos à economia, ao meio ambiente e à sociedade), não importando apenas as ações em si, mas a relevância dessas ações para uma sociedade melhor agora e para as gerações seguintes.

Porém, nem tudo na Polegarzinha são belezas. As diferenças de tempos também geram conflitos. Na nossa geração se acha (geralmente) muito sabedora de tudo. Pensando bem, isso é muito mais próprio do jovem do que de uma geração específica. Por estarmos no período da vida destinado a descoberta, queremos mostrar que estamos certos, que os outros (principalmente os mais velhos) não entendem a lógica da vida moderna, que nossos “amigos” são sim nossos amigos, que podemos sim “ficar” com uma pessoa que conhecemos pelo Tinder, e que nem as gerações passadas podem nos dar exemplo de uma vida boa para todos, por isso, é a nossa vez de tentar algo novo, diferente.

O livro trata de muito mais coisa, claro. Mas não cabe dizer aqui porque a) raramente gostam de spoilers; b) não caberia falar sobre todos os temas abordados num post de blog, pois, eles merecem muito mais que isso, merecem uma boa leitura do texto; c) como diz o título da postagem, este é apenas um breve comentário.

No geral, o Michel Serres pode exagerar, mas ele não mente. Podemos perceber muitas coisas semelhantes a nossa juventude (ou, pelo menos, ao que a nossa juventude gostaria de ser se tivesse mais tempo/dinheiro/disposição, etc). O texto é bem fácil de ler. Vale a pena e pode ser lido em algumas horas. Infelizmente, não está disponível online. Se puder, leia! Você pode se descobrir sem um(a) pequeno(a) polegar.

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Para mais sobre Michel Serres

Michel Serres no Roda Viva – Vídeo

Palestra: O futuro da Universidade – A Universidade do futuro – Vídeo

A contribuição tecnológica para sociabilidade no ativismo: Experiencias do Coletivo Kizomba

A relação entre os movimentos sociais e os meios de comunicação sempre foi intima. Na historia dos movimentos sociais, as mídias serviam muitas vezes para difundir suas ideias e propostas, resultando em pessoas agregando-se à causa. Impressos como panfleto e jornais cooperavam para a unificação de pessoas com causas comuns e fazendo o movimento crescer. Com o tempo, frequências de radio enviam os movimentos sociais a um sentido que não pode-se fechar, a audição. Por muito tempo os movimentos sociais difundiam-se e proliferava-se através da radio e dos impressos, e algumas vezes a visibilidade que o cinema e a televisão trazia retratando as consequências dos movimentos também colaborava. Com a internet, porem, entra-se em uma crescente de sincronia que invade também o ativismo. A possibilidade de visualizar acontecimentos que tangem sua causa e divulgar ao mesmo tempo a muitas pessoas mostra-se muito interessante. Então, vale impresso, radio, chamadas em televisão, peças gráficas e as mídias que puder levar a causa adiante.

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A equipe do Tecnosociabilidade conversou com Mateus para conhecer o Coletivo Kizomba que atua dentro do movimento estudantil. A bandeira é uma nova cultura politica, e na busca de ser a contra-cultura para promover politicas de gênero, ambientais e de raça os meios de comunicação podem ser interessantes suportes. Quando perguntamos sobre como é a interação com os meios de comunicação ele destacou que a internet e o impresso. Imprimem jornais com seus ideais alimentando discussões que possam produzir tanto mudanças politicas quanto culturais. Na internet o Kizomba trabalha de duas maneiras: utiliza-a como mais uma forma de difusão, como paginas nas redes sociais e blogs de conteúdo; e seve-se também para contribuir na sociabilidade. Ele ressalta que essa ultima maneira tem fortalecido o coletivo, a capacidade de registrar exemplos daquilo contra que se luta, discutir questões a distancia, acompanhar e comentar questões sincronicamente, mostra-se como recursos que dão suporte luta. A utilização redes sociais como whatsapp e facebook potencializa a socialização dentro do coletivo, dá a impressão que o coletivo está reunido o tempo todo. Mateus enfatizou também diversifica-se os tipos de conteúdo também e as pessoas tem contato com videos, áudios e textos. Não obstante, antes havia menos possibilidades dos interessados entrarem em contato simultaneamente, espalharem conteúdo, contribuírem com conteúdo e até em dados momentos criticarem ações a medida que elas acontecem.

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A relação entre os meios de comunicação e o ativismo, provavelmente desde sua gênese, sempre foi estreita, porem essa intensificação de sociabilidade possa ser algo novo. Filmar, gravar áudio, fotografar, produzir textos, todos esses processos sincronicamente se relacionando pode ser uma oportunidade de fortalecimento dos movimentos sociais.


obs: A conversa foi gravada pode-se disponibilizar por email.

Coletivo Kizomba, Disponivel em: <https://coletivokizombaufba.wordpress.com/&gt; Acesso em 8 de maio de 2015.

Daniel Graf. Cibertativismo “Em Obras”. (Ebook)

Veja Também:

Anna Flávia Feldmann e Waldo Lao Fuentes Sanchéz. Comunicação e Movimentos Sociais no México: O caso da rádio Platón. In: Revista Altejor

Sónia Pedro Sebastião. O ativismo like: as redes sociais e a mobilização de causas In: Revista Sociedade e Cultura da UFG

Arthur Ituassu. Internet, democracia e mediação: a universidade como lugar para o avanço de espaços comunicativos mediadores da representação política no Brasil. Disponivel em <http://www.ceadd.com.br/artigo-internet-democracia-e-mediacao-a-universidade-como-lugar-para-o-avanco-de-espacos-comunicativos-mediadores-da-representacao-politica-no-brasil/&gt;

Selfie: o seriado da sociabilidade midiática

Em 2014 o rede americana de televisão ABC lançou uma série intitulada “Selfie“, que conta a história de Eliza Dooley (Karen Gillan), uma jovem viciada em redes sociais e mais preocupada com a sua popularidade “na rede” do que com as pessoas mais próximas à ela. Eliza conhece Henry (John Cho), um especialista de marketing que não vive conectado, mas vive para o trabalho e considera fúteis o uso de redes sociais como: Facebook, instagram, etc.

A primeira (e única) temporada do seriado durou apenas 13 episódios. Porém, o que há de mais interessante em Selfie é tema abordado: o uso das redes sociais e, claro, a sociabilidade. Eliza, assim como muitos jovens da atualidade, é uma heavy user – intensa condumidora – das redes sociais e seu mundo está na palma das mãos, já que no smartphone ela tem tudo o que precisa. Fora da internet, Eliza não se importa em saber quem são os seus colegas de trabalho, ou conhecer melhor o rapaz com quem se relaciona, ou construir um bom relacionamento com seus vizinhos. O que realmente importa são os seus seguidores do twitter e instagram (que não podem deixar de segui-la sem que ela faça um escarcéu). Mesmo tomando conta dos exageros (próprios de sitcoms), é preciso lembrar que as características da personagem passam a falsa ideia de que heavy users são isolados do mundo, e

Sabemos, pelos estudos em diferentes sociedades, que a maior parte das vezes os utilizadores de Internet são mais sociáveis, têm mais amigos e contactos e são social e politicamente mais activos do que os não utilizadores. Além disso, quanto mais usam a Internet, mais se envolvem, simultaneamente, em interacções, face a face, em todos os domínios das suas vidas. (CASTELLS, Sociedade em Rede)

Quando houve a disseminação da internet e foi criada a ideia de que as pessoas “ficariam isoladas do mundo ao seu redor” ou “poderiam ser enganadas por pessoas com falsas identidades”, não levaram em consideração que o virtual é uma reprodução das relações já existentes no real, por meio de mídias digitais, porém, com seus próprios códigos e estuturas.

Na etimologia da palavra, sociabilidade vem de sociabilis (sociare) e itatem (itas) e significa “a qualidade ou condição de associar-se de maneira próxima”. A sociabilidade digital é, então, a associação das pessoas umas com as outras através dos meios digitais. Essa associação é um caminho natural do homem, que faz isso desde a formação dos primeiros grupos nômades na pré-história. Na verdade, o que acontece na atualidade é que o uso da internet potencializa a sociabilidade,  “tanto à distância como no ambiente da comunidade local. As pessoas ligam-se e desligam-se da rede, mudam de interesses, e, além disso, mudam de companheiros on-line quando querem. ” (FREITAS)

Mas o problema de Eliza não é a conexão. É o distúrbio da hiperconexão, também conhecido como iDisorder (em homenagem ao iPhone) nos Estados Unidos. A personagem usa o celular quase como uma extensão do seu corpo, e seus perfis da rede social são formas de suprir a carência causada pela solidão. A imagem que ela tanto luta para manter confere a ela um status e alimenta o seu ego. Por outro lado, as relações superficiais de Eliza com seus seguidores e amigos do Facebook fazem com que ela continue sozinha, não crie fortes laços com as pessoas mais próximas e não perceba o mundo ao seu redor por achá-lo desinteressante. Eliza não precisa ser segura, bonita, simpatica, amigável, e rica. A ela basta parecer ser tudo isso, para que os seus “lovers” continuem idolatrando-a.

Aqui, podemos lembrar do “Principe” de Maquiavel, já que é mais importante parecer ser do que ser. As pessoas fazem isso o tempo inteiro: falamos, compartilhamos, vestimos aquilo que formará a imagem que queremos que tenham de nós. Pode ser que não vivamos em função disso como Eliza, mas as redes sociais nos dão a oportunidade de editar a nossa identidade, selecionar aquilo que queremos se seja mais (ou menos) relacionado a nós. É disso que a internet tem se apropriado nos últimos anos para melhores resultados no Marketing Digital: as nossas preferências, gostos, inclinações, interesses, etc.. São esses interesses expostos (por cliques, principalmente) que permitirão que ferramentas de anúncio nos classifiquem como uma tribo específica que será mais impactada por um tipo de comunicação.

Falando em produção de conteúdo para redes sociais, let me take a #Selfie.

Para mais:

ROSEN, Larry D. iDisorder: Understanding Our Obsession with Technology and Overcoming Its Hold on Us (Amazon)

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REFERÊNCIAS:

CASTELLS, Manuel. Sociedade em rede: Do conhecimento à Política.

FIQUEIREDO, Giovanna Santos. As redes sociais na era da comunicação interativa. 2009 ISSU

FREIRAS, Rafael. Sociabilidade, Tecnologia da Internet e Comunicação. Observatório de Imprensa.

Conteúdo digital, direito autoral, contexto brasileiro, o verdadeiro quebra-pau.

Para entender o surgimento, as bases do direito autoral

O advento das novas mídias, a relativa facilidade de produção e, especialmente de distribuição de conteúdo artístico e midiático proporcionado pela evolução da eletrônica, informática e meios de comunicação (relativa no sentido da observação dos limites técnicos de cada território e da compreensão de que o acesso se dá pelo viés financeiro) proporciona, inegavelmente, uma expansão absurda da possibilidade de produzir em condições que não poderiam ser imaginadas antes quando tratamos especialmente da relação espaço-temporal, e do acesso a conteúdo prévio para inspiração, estudo e remix.

Pensando no contexto atual de produção cultural e de bens artístico-midiáticos, vem à tona uma das mais graves questões da humanidade quando se trata da produção, especialmente a dos bens imateriais e do patrimônio produzido a partir de das idéias: o direito de autoria. Para entender as diferentes visões e movimentos relacionados a esta questão é interessante remontar as bases do surgimento dessa ideia de proteção do autor e do conteúdo por ele produzido.

A humanidade sempre produziu bens culturais, artísticos, imateriais. Contudo a preocupação em proteger o autor, e, fundamentalmente, seu direito pecuniário sobre obra surge na modernidade. Na Grécia antiga, apesar da intensa produção cultural, não havia uma discussão maior sobre garantias ao autor, embora especule-se que havia sim já um desprezo ao plágio, por exemplo (BARROS, 2007). Em Roma, surge o esboço de uma primeira figura jurídica relacionada ao que temos hoje como lei de direito autoral: surgem os copistas, profissionais responsáveis pela reprodução de obras clássicas. Aí nasce uma distinção muito interessante de ser observada que é a distinção de quem tem o direito pecuniário sobre a obra (o profissional copista que ganha dinheiro pelo ato laborioso) e aquele que detém as honras, o benefício moral da obra, o autor. (BARROS, 2007, pg 468). Até aqui percebe-se a figura do autor muito mais preocupada em manter a dignidade, a honra sobre o que produzira, sempre sem grandes aspirações relacionadas ao fator ganho financeiro.

Contudo a idade média traz um elemento histórico que transformou totalmente esse panorama. A união de igreja e estado delega ao clero a responsabilidade pela produção de praticamente todo o conteúdo intelectual da época, deixando nas mãos da igreja definições como: quem produzia, quem distribuía, para quem era distribuído o conteúdo e que tipo de conteúdo deixaria de ser veiculado na sociedade. Esse dado é fundamental pra compreender que há uma base política tendenciosa (controle social) na formulação da ideia de proteção do autor e suas obras.

Com a prensa, e a possibilidade de reprodução massiva de conteúdo intelectual, surgiram as linhas gerais do que existe hoje como direito autoral. Essas linhas abarcaram fundamentalmente o direito de livreiros e editores, que controlavam a prensagem do material, revelando assim outro aspecto discutível do que há hoje como direito autoral, a distância da proteção e dos ganhos de quem realmente cria a obra e de quem a reproduz e distribui. Mas é sempre interessante atentar para o fato de que as bases desse movimento sempre foram voltadas para aspectos como proteção, ganho financeiro e controle de conteúdo (que desemboca, obviamente, no controle social).

A internet, a produção desenfreada, e a livre distribuição de conteúdo intelectual

Entendendo a internet como o principal mecanismo de distribuição de conteúdo intelectual no mundo contemporâneo (poderíamos aqui falar também sobre o potencial de produção online, a onda da web 2.0, mas isso você pode ler aqui) precisamos pensar também em alguns fenômenos que assombram o ideal de proteção da produção intelectual e do autor. A ideia de compartilhamento é intrínseca à ideia da rede, pensando em níveis totalmente diferentes, como desde a ideia de troca de dados: o próprio ato da conexão, até práticas mais elaboradas, complexas, como por exemplo o desenvolvimento de software em comunidade, a criação coletiva , o peer-to-peer e o software livre.

O Napster, por exemplo, foi um grande divisor de águas no tocante a forma de produzir e ganhar dinheiro da indústria fonográfica. Ele inferiu diretamente no rumos da produção musical relacionada a esse instrumento fantástico que se difundia, a internet. A construção de bases de distribuição de conteúdo musical, e, principalmente a concepção de novas ideias para a diminuição de distâncias (foi aqui que por exemplo pequenas bandas conseguiram alcançar um público para além de suas cidades, circular em outros países, continentes, alcançar o sucesso que só quem era produzido por grandes gravadoras conseguia) a partir da constituição da internet, se deu de maneira assombrosamente rápida, proporcionando não somente a construção de um novo pensamento mundial ou uma batalha jurídica milionária, mas, especialmente, a busca por novas ferramentas (jurídicas inclusive) que considerassem não somente a vontade dos indivíduos em compartilhar, mas a vontade dos próprios autores de ter suas obras reproduzidas, veiculadas, circulando, ou mesmo se transformando em outros produtos.

Das alternativas, o caso brasileiro e de onde vem a inspiração               

É interessante perceber o que essa transformação de pensamento trouxe objetivamente para o campo jurídico e para a questão da produção de conteúdo digital, e da sua distribuição pela internet. Hoje algumas alternativas de licenciamento surgiram, como dito antes, não somente em decorrência da vontade do consumidor, mas, em grande parte, pela burocracia vivida pelo autor que gostaria de ver sua obra compartilhada. O caso brasileiro é especialmente cruel em relação ao compartilhamento voluntário por parte do autor, já que, pela lei de direito autoral brasileira, toda obra é automaticamente protegida, mesmo sem registro em qualquer instância oficial. No ano de 2011, o Estadão noticiou uma pesquisa que classificava o Brasil como 4º pior quanto as leis de direito autoral. O principal representante da onda Copyleft (oposição ao Copyright, o que é restrito por força de lei) no Brasil, atualmente são as licenças Creative Commons. Essas licenças permitem ao autor expressar vontades relacionadas ao compartilhamento e uso de suas obras, facilitando, através de um formulário online a criação de um documento revelando essas vontades (Saiba mais no site do Creative Commons Brasil). Esse tipo de licença pode ser muito favorável, por exemplo para a área da comunicação. No próprio site da Creative Commons é exposto o caso da Agência Pública, que deseja que suas matérias circulem o mais rápido possivel e incentivam o compartilhamento, inclusive. Essa agência se define como “uma agência de reportagem e jornalismo investigativo independente e sem fins lucrativos. Todas as nossas reportagens podem ser reproduzidas livremente, seguindo as nossas normas de republicação: As reportagens da Pública podem ser levemente editadas, ter os títulos alterados e mudanças pequenas para adequar o conteúdo ao estilo do veículo.”

Vale aqui pontuar que esse movimento é altamente influenciado pela licença GPL – Gnu Public Liscense – licença utilizada por programadores que incentivam a criação de softwares em comunidades, distribuídos com código aberto que concedem liberdades como alterar, usar e distribuir para usuários comuns ou outros programadores. Apesar de críticas ao modelo (veja um exemplo aqui), essa é hoje uma alternativa real para quem produz e quer licenciar sua produção partindo de outras bases, inclusive filosóficas (a ideia de incentivo a criação coletiva, por exemplo). Por fim, é interessante perceber que toda essa discussão nos remete também a ideia de originalidade, que hoje, é totalmente influenciada por uma cultura e prática de remixagem de clássicos ou não clássicos, mas totalmente difundida a partir da cultura de uso da rede, e da impossibilidade, inclusive técnica de rastreamento total de usuários e de conteúdo. Certamente vale muito a pena a busca (identificada especialmente no campo artístico) pela originalidade, mas com certeza vale também o entendimento de que uma fonte de inspiração sempre existe, ainda que natural, e que do autêntico hoje se aproxima muito mais quem propõe recombinações interessantes do conteúdo que circula por aí.

Você pode gostar de:

Youtube: Caio Mariano (advogado) – Pirataria x Creative Commons

Referências:

BARROS, Carla Eugenia Caldas. Manual de Direito da Propriedade Intelectual. Aracaju: Evocati, 2007.

ORAM, Andy. PEER-TO-PEER: O poder transformador das redes ponto a ponto. São Paulo: Berkeley, 2001.

Lei 9610/98 – Presidência da República Federativa do Brasil.

Mídia tem Idade?

Antes de podermos discorrer sobre as novas e velhas mídias, é importante sabermos conceituá-las e diferenciá-las. As velhas mídias são as mídias impressas, como jornais e revistas, e os meios de comunicação em massa, que são as televisões e os rádios (e suas emissoras). As novas mídias estão concentradas em um só lugar: a internet. Na internet nós temos os jornais online, temos blogs, as redes sociais, todas sendo capazes de nos passar informações como as antigas mídias faziam, sendo seu acesso muito mais dinâmico e expresso.

O que acontece na internet em 60 segundos

O que acontece na internet em 60 segundos

Quando usamos o termo “velhas mídias”, nos faz parecer que elas não são mais utilizadas e foram sobrepostas pelas “novas mídias”. Contudo, as velhas mídias ainda são necessárias para a veiculação de informação. O espaço virtual não é capaz por si só de divulgar e distribuir informação para todos, pelo menos não de forma indireta. Quer dizer, ainda temos que buscar a informação na internet se a quisermos, enquanto nos outros meios que já estão “incrustados” na nossa sociedade, nós recebemos a informação muitas vezes de forma indireta, em intervalos comerciais ou até mesmo embutidos no contexto de algo do seu interesse. Isso tudo considerando o fato de que nem todas as pessoas tem acesso à internet ainda, o que apenas solidifica o fato de não podermos abrir mãos das mídias populares.

Agora que distinguimos as novas e velhas mídias, uma indagação é levantada. Em uma notícia publicada na BBC Brasil, onde mostra a diferença de valores das negociações de produtos das novas e velhas mídias, é questionado o porquê dos produtos das novas mídias serem avaliados em um valor tão maior que os das velhas mídias. As novas mídias possibilitaram a descentralização do poder de disseminar informação e produzir conteúdo. Aqueles que detinham o poder nas velhas mídias perceberam que o mundo tecnológico-social tinha muito mais poder de influência que o anterior das velhas mídias.

Manifestos Internet

Agora, cidadãos comuns estão muito mais capazes de produzir conteúdo informativo, se organizar e sair pras ruas para lutar por seus direitos à manifestação de opinião. A internet e suas redes sociais viraram palco de protestos, vale lembrar-se das manifestações de 2013, ano da Copa das Confederações, onde houve a mobilização da população e a cobertura de protestos nas redes sociais, e em todas elas você podia ver a #vemprarua, convocando todos os brasileiros para participar do movimento. Saindo do Brasil, antes mesmo dos protestos de 2013, tivemos a fatídica Primavera Árabe, onde a repercussão nas redes sociais foi tanta que o governo decidiu bloquear o acesso à internet, mas mesmo com esse bloqueio, o conteúdo ao qual eles não tinham controle atingiu outras regiões, mostrando a capacidade da internet de disseminação de informação.

Celulares multifuncionais

Celulares multifuncionais

Com os avanços na tecnologia que acarretaram na criação das “novas mídias”, os jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão sentiram que precisariam aderir aos novos meios de “fazer notícia”, e passaram a reproduzir seus conteúdos na internet, com o intuito de expandir seus horizontes, para que a notícia chegasse onde o meio físico não conseguiria levar. O avanço tecnológico também permitiu que os aparelhos, que antes eram criados com apenas um objetivo e função, exercessem outras funções que antes tinham um aparelho específico para exercê-las. O smartphone é um grande exemplo disso. Antes o celular tinha apenas uma função: se comunicar com outro indivíduo à distância. Agora os celulares vêm equipados com todo tipo de função: tirar fotos, fazer vídeos, acessar a internet, ler livros, jogar online entre tantos outros. Este é o melhor exemplo de Convergência Tecnológica que podemos identificar na contemporaneidade, tudo está sendo digitalizado. Os livros estão perdendo seu corpo físico, nós não precisamos mais “botar o filme” nas câmeras, pois as câmeras digitais já tomaram conta do mercado.

A necessidade da portabilidade não para, é quase como um vício. A sociedade capitalista atual, onde o tamanho, a capacidade e a marca do seu celular te definem, está transformando nossas mais novas gerações em “robôs sedentos por status”.  As multifuncionalidade chegaram a tal ponto que a essência foi perdida, há vários casos de adolescentes que não fazem ligações com o celular e só se comunicam por WhatsApp.

Diante de avanços constantes na tecnologia, em que ponto um aparelho se torna obsoleto? Quando há a necessidade de trocar de celular? A Apple está sempre lançando um iPhone novo a cada ano, mas é escolha do usuário trocar o iPhone 4 dele por um 5. Será mesmo? No começo do século passado, quando as primeiras lâmpadas foram fabricadas, os fabricantes notaram que elas duravam muito e que com isso as vendas seriam muito limitadas. Então eles decidiram fabricar lâmpadas com um limite de duração, para que se tornasse necessária compra frequente de outras lâmpadas para a reposição. Esse é o exemplo mais simples da “Obsolescência Programada”, onde um produtor desenvolvia, fabricava e distribuía um produto para consumo de forma que ele viesse a se tornar obsoleto ou não funcional com intuito de obrigar o consumidor a comprar uma nova geração do mesmo produto. Retomando o exemplo anterior do iPhone, os seus desenvolvedores já o produziam para que, quando uma geração nova fosse lançada, o iPhone anterior se tornasse obsoleto da seguinte forma: uma atualização nova no software que apenas o iPhone da nova geração suportaria e possibilitaria realizar alguma(s) nova função. Independendo da significância daquela função, aqueles que já tinham sido arrebatados pelo sistema, eram automaticamente levados a acreditar que eles “precisavam” comprar o novo modelo do produto. Essa obsolescência programada reflete diretamente com a ideia de consumismo trazida por Karl Marx. No momento em que a ideia de “necessidade” é sobreposta pela ideia de “desejo”, você pode se caracterizar um “ser capitalista”.

Referências:

JENKINS, Henry, Cultura da Convergência. São Paulo :Aleph, 2008

Morris, B. Venda do ‘Post’ expõe contraste entre velha e nova mídia. BBC Brasil. ago, 2013. < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130806_post_novas_midias_pai> 16/04/2015.

Às Idas e Idas da Tecnologia – Da Pressa a Velocidade

Uma definição possível para a economia em sua origens seria: forma ou maneiras de intercambiar interesses e propriedades. Com o tempo as tecnologias para qualquer relação social se aprimoram, como a economia faz parte da sociabilidade humana, não se estagnou. Os humanos trocavam materiais por materiais, materiais por serviço e passaram a trocar com um intermediário, as moedas. A historia da forma de negociar lembra o modo como a comunicação se desenvolveu a principio diretamente, depois com intermediários e gradativamente na convergência.

Quando a economia foi passando a ser global, a velocidade de transmissão de informações sobre o estado do mercado e das propriedades foi uma necessidade. O aprimoramento da entrega de cartas vieram com o aprimoramento das tecnologias, com meios de transportes melhores vinham as informações mais rápidas, cooperavam para um cotidiano mais veloz. Depois vieram tecnologias mais instantâneas: o telegrafo, radio, telefone, televisão, etc. Tudo isso cooperando também para a velocidade do convívio social e as finanças.

Nos tempos atuais convergem-se as possibilidades. Pode-se ver o histórico dos investimentos a medida que checa a conjuntura atual. A tecnologia que se buscou tanto reduzir os espaços e tempo entre os indivíduos e seu dinheiro, agora pode ser o próprio dinheiro como vem a proposta do BitCoin que teve recentemente sua loja física no brasil. Monitorar seus recursos em tempo real e fazer transações a medida conversa no whatsapp ou manda um email importante mostrou-se uma possibilidade também.

“Para o homem primitivo, a noção de espaço era um mistério incontrolável. Para o homem da era tecnológica é o tempo que tem esse papel.”―Marshall McLuhan

Oi, quer TC?

– Amggggg!!!
– Oi!! Saudades <3- Tbm. Deixa eu perguntar: Você já ouviu falar num negócio chamado “Chatroulette“?
– Não, o que é?
– É um site que a gente usa pra ficar falando com desconhecidos.
– E qual o intuito?
– Falar, ué. Com desconhecidos. Com pessoas que você provavelmente nunca encontraria na vida. E depois, talvez, nunca mais encontrar na vida.
– Hmmm… LEGAL! Vou ver. Tem pornografia lá?
– Pelo menos pelo que eu vi até agora não. Só falei com pessoas normais, olhando pra câmera de uma forma normal, falando sobre coisas normais.
– Massa. Vou entrar nisso aí.
– Tô conversando com um sul-africano. LOL. Adicionei ele no Facebook.
– Oxiii! Ta doida? Fica falando com essa gente desconhecida assim! Você nem sabe se ele é sul-africano mesmo.
– Falou a menina que tá namorando um cara que conheceu num grupo de Whatsapp… anyway, eu stalkeei ele e o local que ele trabalha. Ele tá nas fotos, etc, etc. E é muito gente boa.
– Tão tá. Mas vou sair desse negócio. Começou a aparecer gente indecente pra mim.
– HAHAHA! Pra mim não apareceu nada. Acho que o problema é com você e não com o site hahah

O diálogo posto acima é inspirado em uma conversa de Whatsapp. Particularmente, ainda estranho um pouco as formas de relação entre as pessoas da minha geração. Sim, nós muitas vezes nos conhecemos assim. O número de pessoas que conheci por internet é algo fantástico: tem a menina do twitter, que mora lá no Rio Grande do Norte; tem o amigo de uma amiga, que eu nem conheço pessoalmente mas sei que é gente boa pra caramba; tem o cara que eu conheço há anos mas que só encontrei esse ano e nem parecia que nunca tínhamos nos visto.

O problema de tudo é minha mãe. Minha mãe e minha tia. Elas vivem dizendo pra eu não falar com estranhos porque “Olha só o que aconteceu com essa mulher que está passando aqui no Fantástico! Ela ficou conversando com um cara que disse a ela que era de Miami, que tinha tudo, aí ela foi lá, se apaixonou e ele deu um golpe nela. Tá vendo que isso por acontecer com qualquer um? Cuidado! Não fica aí contando nada de sua vida nessa internet não, que você não sabe com quem você tá lidando… A gente não conhece ninguém…”. Conhecer… está aí uma palavra interessante. O que seria conhecer?

Se lemos as definições de conhecer e conhecimento no dicionário online, podemos dizer que conhecer uma pessoa é reconhecer, distinguir, ter informações sobre alguém, através da experiência de uma relação. Ora, nós nos relacionamos uns com os outros pela internet. Raquel Recuero fala no seu livro “Redes Sociais na Internet” que as ferramentas de Comunicação Mediadas pelo Computador (CMC):

proporcionaram, assim, que atores pudessem construir-se, interagir e comunicar com outros atores, deixando, na rede de computadores, reastros que permitem o reconhecimento dos padrões de suas conexões e a visualização de suas edes sociais através de seus rastros. (RECUERO, Raquel. 2009)

Como ela explica no livro, a nossa identidade é construida e expressa na rede. Esses rastros que deixamos durante a construção e expressão do nosso eu, permite que nós nos conheçamos. Eu já estive, um dia sequer, com a menina do twitter que mora lá no Rio Grande do Norte? Ainda não. E ela é minha amiga? Sim. E isso não é estranho. Tem gente com quem convivo todos os dias, mas que não passam de estranhos para mim.  “Mas é importante ter uma relação face a face”. Concordo plenamente. Existe um conhecimento físico, expressional, reacional, que nós adquirimos no contato “real”. É muito comum que pessoas que se conheceram na rede queiram se encontrar, e tenham planos para tal. Pode ser perigoso? Pode, bastante.

Uma série de TV famosinha que fala sobre relacionamentos virtuais é Catfish, atualmente transmitida pela MTV. “Catfish” é um termo usado para designar pessoas que criam perfis falsos online com o intuito de fazer com que pessoas se apaixonem por elas (</3). A série, então, marca encontros de casais que se relacionam virtualmente mas que não se conhecem pessoalmente, a fim de ver se um dos dois é um Catfish ou não. A parte legal é que são casos reais que mostram dificuldades e soluções reais (e que não são só desastres).

Segundo Donath (1999) a  percepção do Outro é essencial para a interação humana, e na ausência de informações que permeiam a comunicação face a face, as pessoas são julgadas e percebidas por suas palavras. Através dessas interações teremos as impressões, em parte construídas pelos atores e em parte percebidas por eles (Goffman, 1975).

Dá pra confiar? Dá… Não dá… Não sei. Ainda sou do tipo que não usa Tinder pra paquera. Mas também converso com gente que não conheço. O mais importante que tenho em mente é que uma rede social é feita por pessoas (atores) que se relacionam por uma rede tecnológica (não necessariamente de computadores), e existem pessoas de todo tipo. Mas quer uma dica? Não entra nessa de “amor ao primeiro click”. A primeira impressão pode sempre enganar.

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Bibliografia:
RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. 2009 – Disponível em: http://issuu.com/midia8/docs/socialmedia

O homem, a técnica e a tecnologia

Partindo da discussão que envolve as tags: técnica, informação, cultura, tecnologia, comunicação, objeto – é possível enxergar algumas dimensões da existência humana e perceber que a dureza em determinadas questões certamente não indicam o caminho da superação e desenvolvimento da humanidade.  A discussão acerca desses temas é uma dessas, ela exige relativização e circulação entre os pontos de vista, para construção de um olhar que não estigmatize nenhum dos pensamentos envolvidos.  Continuar lendo

Na ponta dos dedos, o mundo (quais mundos?)

Quando ainda nos primórdios da industrialização, a Obsolescência Programada surgiu como estratégia para levar os consumidores à comprar, à depender sempre de um novo produto, talvez Sloan, aquele mesmo da General Motors de 1920, tenha pensado que alguns anos seria suficiente para manter o mercado. Se pudermos indagar, o que pensaria, ele, nos dias de hoje? Ainda Von Neumann e Alan Turin, percursores da computação, lançaram quase profeticamente a obsolescência dos hardwares sempre em 18 meses. Da época deles para cá os computadores diminuíram em tamanho e expandiram em capacidade numa velocidade espantosa, ganharam outros nomes em função dos tamanhos tais como Desktops, Laptops, Palmtops, Notebooks, Personal Computer, etc. Hoje estão presentes em boa parte do planeta, objetos desejosos e soluções para os mais variados problemas do nosso dia a dia, mas mesmo assim, mesmo esses sendo símbolos da alta tecnologia que marcam a vida moderna, possuem (ou possuíam) em suas estruturas dois dispositivos que fugiram da programada obsolescência: o teclado e o mouse. Utilizados para inserir dados à maquina, chamados também de “dispositivos de inputs”, levaram muitos anos ocupando o mesmo lugar e dando dor de cabeça para quem se propôs a pensar em outras formas de inserir dados em um computador.   Continuar lendo