Na ponta dos dedos, o mundo (quais mundos?)

Quando ainda nos primórdios da industrialização, a Obsolescência Programada surgiu como estratégia para levar os consumidores à comprar, à depender sempre de um novo produto, talvez Sloan, aquele mesmo da General Motors de 1920, tenha pensado que alguns anos seria suficiente para manter o mercado. Se pudermos indagar, o que pensaria, ele, nos dias de hoje? Ainda Von Neumann e Alan Turin, percursores da computação, lançaram quase profeticamente a obsolescência dos hardwares sempre em 18 meses. Da época deles para cá os computadores diminuíram em tamanho e expandiram em capacidade numa velocidade espantosa, ganharam outros nomes em função dos tamanhos tais como Desktops, Laptops, Palmtops, Notebooks, Personal Computer, etc. Hoje estão presentes em boa parte do planeta, objetos desejosos e soluções para os mais variados problemas do nosso dia a dia, mas mesmo assim, mesmo esses sendo símbolos da alta tecnologia que marcam a vida moderna, possuem (ou possuíam) em suas estruturas dois dispositivos que fugiram da programada obsolescência: o teclado e o mouse. Utilizados para inserir dados à maquina, chamados também de “dispositivos de inputs”, levaram muitos anos ocupando o mesmo lugar e dando dor de cabeça para quem se propôs a pensar em outras formas de inserir dados em um computador.  

Pode ser um pouco estranho pensar em teclados e mouses hoje em dia. Eles ainda existem, mas se você tem um celular há uma grande chance dele ter uma tela sensível ao toque, e segue assim com outros dispositivos. Até os designers que eram mais fiéis ao uso de mouses para a produção de arte gráfica, agora usam mesas digitalizadoras. Também pode ser estranho se deparar com o fato de que essa tecnologia touch teve inicio, ainda rudimentar é claro, há quase 50 anos atrás. É difícil pensar num “pai” (já que muita coisa surgiu em locais diferentes em épocas não muito distantes uma das outras em inúmeras situações importantes da historia) já que a paternidade é dividida por George Samuel Hurst e E. A. Johnson. Foi E. A. Jonhson o primeiro a falar sobre a possibilidade de telas sensíveis ao toque utilizando-se da eletricidade que o corpo transmite, ainda em 1965 ele escreveu seu primeiro artigo abordando essa tecnologia, que hoje é chamada de “capacitiva”. Já indo para o lado da pratica, foi em 1973 que Sam Hurst desenvolveu o “Elograph“. Um sensor que respondia ao toque e chegou a ganhar popularidade entre os produtos desenvolvidos na época, mas que obteve seu auge quando a Siemens investiu na patente.

Primeiro touchscreen da história. (Fonte da imagem: Bill Buxton)

A década de 80 deu inicio ao uso do touch de forma comercial com o lançamento do HP-150 produzido pela Hewlett-Packard. O HP-150 era um computador de casa que respondia ao toque através de sensores infravermelhos. Logo a tecnologia se difundiu através do PDA’s, agendas pessoais sensíveis ao toque, grande novidade para o período. O touch como conhecemos hoje demorou 30 anos para surgir depois do invento da HP, mas está tomando mercado a cada nova apresentação envolvendo grandes resoluções, resistência a danos, leveza e praticidade. Nos nossos celulares, eis então o grande difusor em largue escala das touchscreens, deu-se o novo modo de utilizar, inserir dados, de forma diferente. Ainda com teclado e mouse usávamos (ou ao menos esperava-se que uma pessoa utilizasse) todos os dedos. Com os celulares, e smartphones (mesmo estes também sendo celulares designam um nível diferente de tecnologia, fala-se de um celular inteligente), por conta das dimensões e ergonomia desses objetos, começamos a utilizar preferencialmente os polegares. E é neste ponto que começamos a juntar os avanços tecnológicos, a obsolescência dos objetos e os costumes sociais. Os usos dos polegares é justificado quanto às formas do objeto, mas a atribuição que Michel Serres dá a isso no livro “Polegarzinhavai de encontro a um fator muito mais abrangente. Os dispositivos físicos tornaram-se receptáculos de programas lógicos que auxiliam (ou atrapalham) a vida humana. A internet foi um grande avanço para isso. Com a expansão da web 2.0 o mundo começou a ser compartilhado de forma jamais pensada em outras épocas. Hoje ele é transmitido em tempo real e nós podemos acessa-lo com o simples toque de um polegar, mas tal capacidade não vem sem seus poréns Podemos acessar o mundo e informar o mundo sobre o que acontece conosco, vivemos em interação e conexão continua. Acordamos e dormimos com esses dispositivos por perto e caso não os tenhamos próximos temos a probabilidade de entrar em pânico por não saber o que fazer sem eles. Eles nos dão as horas, no dizem quando dormir, quando acordar, quando beber agua, dizem o que comeu ontem com aquele seu amigo na hora do jantar, e também diz o que você pode querer ver, comprar, usar, podem dizer até para não o usarmos muito, alertando-nos sobre os riscos. Nós usamos esses dispositivos, e não quer dizer que todo uso é somente maléfico ou somente benéfico. Muniz Sodré, numa proximidade com algumas ideias de Aristóteles, expõem uma nova forma de vida, uma nova forma de reger a vida, que circunscreve todas as outras ideias se sobrevivência, arte e política: ele fala de um Bios mediático. Uma esfera da vida humana dada pela comunicação constante, mediando relações, formando vínculos, ou aparentando forma-los, nos levando a um novo lugar sem sair de casa, mudando nossa maneira de viver e de interpretar o mundo e isso vem através das novas mídias, dos novos dispositivos, das novas formas de “tocar” o mundo             Segundo a psicóloga que nos inspirou na criação desse blog, Sherry Turkle, é muito tentadora essa nova forma de conexão continua. Ela nos permite, em simples toques, geralmente feitos com o polegar, acessar um mundo de informações, que por ser tão grande nos dá a possibilidade de encontrar aquilo que nos seja atrativo, interessante, e assim podemos estar sempre direcionando nossa atenção para aquilo que queremos, não encarando assim as adversidades ou as coisas que não se fazem “chamativas”. Como uma criança que não quer tomar banho ou escovar os dentes, quer apenas brincar, todo o tempo, brincar.  A ideia de ter sempre ao dedo algo interessante pode parecer magnifica, no entanto surgem outras complicações. Psicólogos advertem que a relação com a adversidade é crucial para a formação do sujeito. Se nos permitirmos falar de forma filosófica, a adversidade ou o acaso, a falta de foco em um dado momento, a possibilidade de encontrar algo inesperado, ou se quisermos usar o termo de Horace Walpole, a “Serendipidade” foi o meio que tornou possível grandes evoluções, grandes percepções que expandiram uma ideia e deram base para outras tantas ideias. Só que, ao mesmo tempo que afirmam essa importância chamam a atenção para o comodismo criado por esses novos meios de interação, principalmente o celular e a internet.  As complicações não ficam somente no comodismo, chegam novas tecnologias, novos programas, novas redes sociais, prometendo, “dando” diversos beneficios, diversas soluções, funcionando sempre para proporcionar o mais adequado e próximas dos nossos gostos. São tão influentes essas ferramentas que algumas pessoas começaram a se perguntar onde está realmente o nosso interesse, enquanto indivíduos e consumidores. Não temos a resposta para a inquietação levantada no paragrafo anterior, ao contrario, temos muitas dúvidas e parece-nos que surgirão ainda mais, mas mesmo assim se faz necessária a reflexão sobre o que esse acesso fácil, essa era dos polegares, está realmente a fazer conosco.                               

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