O homem, a técnica e a tecnologia

Partindo da discussão que envolve as tags: técnica, informação, cultura, tecnologia, comunicação, objeto – é possível enxergar algumas dimensões da existência humana e perceber que a dureza em determinadas questões certamente não indicam o caminho da superação e desenvolvimento da humanidade.  A discussão acerca desses temas é uma dessas, ela exige relativização e circulação entre os pontos de vista, para construção de um olhar que não estigmatize nenhum dos pensamentos envolvidos. 

A questão do desenvolvimento tecnológico, na história da humanidade sempre foi alvo de controvérsia. O saudosismo e conservadorismo são sentimentos que desde sempre fizeram parte do repertório humano diante das transformações da sociedade ao longo do tempo, mas é necessário entender algumas das dimensões do nosso desenvolvimento e relação com as técnicas e as tecnologias (essas últimas sendo entendidas como um resultado de refinamento e objetificação das anteriores).

A sobrevivência e desenvolvimento da humanidade na Terra só foi possível através do desenvolvimento de técnicas – modos de fazer – e sua transformação em objetos técnicos – tecnologias. Foram elas que permitiram a transformação do espaço e da dinâmica natural do planeta, e, por outro lado, a consequente dominação exercida pelo homem sobre as outras espécies. Isso é perceptível desde a descoberta/desenvolvimento dos instrumentos produzidos com pedra da pré-história. (Veja mais sobre a técnica na pré-história e o desenvolvimento humano)

TECNICA E PENSAMENTO CIENTÍFICO

O desenrolar da história nos encaminhou para um momento onde o paradigma da escrita se sobrepôs às outras formas de transmissão do conhecimento. Uma técnica de documentar técnicas tornou-se necessária também, em certa medida, no momento em que o documento físico, o registro,  ganhou importância para a vida humana. É certo dizer ainda que, em certos casos, o valor estético ou histórico de determinados registros supera a importância dada às mensagens, ao conteúdo desses objetos. De fato esse é um fluxo constante, uma técnica que produz uma tecnologia que pode servir por exemplo para documentar e difundir essa própria técnica.

Com o desenvolvimento estabeleceu-se o uso político do pensamento científico, e os centros de pesquisa e desenvolvimento criados no período da Segunda Guerra Mundial sacramentam a relação técnica-ciência atrelada à política, revelando perigos e belezas do processo técnico aplicado e o surgimento de artefatos (irônico assumir uma origem etimológica bela para um objeto técnico bélico) que, através de um processo técnico-científico alteraram toda a dinâmica política internacional.

TECNOCIÊNCIA, COMUNICAÇÃO E INFORMÁTICA

A constante artificialização do mundo (vida que vem do uso de objetos, artefatos) gerou grandes e rápidas transformações também nas formas de comunicação humana. Entendendo o ser humano como um ser que tem a necessidade de se comunicar, de romper o isolamento ao se aproximar de outros,  e o entendendo também como um ser que só vive através da sua relação com objetos técnicos, não é difícil entender a velocidade das mudanças relacionadas aos processos de comunicação na sociedade. Podemos exemplificar com o telefone. A primeira linha telegráfica ligava Baltimore a Washington, cerca de 60km, em 1844.  Cento e cinquenta anos depois já era possível trocar informações com pessoas em qualquer lugar do mundo através de uma rede mundial onde computadores, máquinas que ocupavam prédios inteiros, e agora estão conectados e ocupam uma mesa dos escritórios e salas de estar das pessoas.

ASDASD

A relação expressa entre técnica e tecnologia avança, no âmbito da comunicação para a representação tecnologia-informática. Nesse sentido as pessoas passam a entender a tecnologia, que deriva da técnica, através dos artefatos eletrônicos, cada vez menores, móveis e conectados. Essa transformação sugere uma circulação massiva de dados, muita informação sobre os temas mais específicos, produzidos a partir de fontes bem próximas de onde é realmente experienciado o conhecimento-prática. As transformações advindas desse processo influem na constituição de novas relações interpessoais, de trabalho, na relação que as pessoas tem como o espaço ao redor e com o seu próprio corpo, partindo da premissa “McLuhaniana”. Nesse sentido haverá leituras diferentes sobre todo esse processo de concentração (e ao mesmo tempo dispersão) do conhecimento no chamado ciberespaço, o que no entanto não poderá ser desconsiderado é que, de fato, o aumento de informação disponível aumenta a probabilidade do aumento qualitativo da produção do conhecimento (através de processos de politização da sociedade), uma vez que o aumento quantitativo é evidente.

O CASO BRASILEIRO

Numa caminhada entre as mercês e a piedade, centro de Salvador, é possível enxergar a forma de entrada das novas tecnologias da comunicação na vida dos brasileiros e brasileiras. Enquanto você caminha nessas ruas, vê pedestre, motorista, ciclista, camelôs, gringos, locutores de lojas. Muitas pessoas nas ruas estão respondendo uma mensagem ou verificando atualizações em suas contas do facebook, twiter ou email. A introdução dos smartfones  e seus aplicativos na vida das pessoas no Brasil, nos desperta para algumas questões interessantes: Como pensar a introdução da tecnologia microeletrônica no universo das pessoas que não tem a cultura da leitura? Como imaginar a relação de pessoas que desfrutaram de um processo educacional básico fraco com a mega massa de conteúdo disponível na internet. O que esperar de reação produtiva aos estímulos que o uso de cada aplicativo proporciona?

Em artigo no livro Cultura Digital.br o sociólogo André Lemos diz:

Nós pulamos a cultura literária e passamos direto para o áudio-visual. Sem aprender a ler e escrever, nós temos uma facilidade muito grande de uso e de adaptação a esses novos meios.

Isso é percebido nas ruas das capitais brasileiras, e mesmo nas cidades mais afastadas do interior essa realidade já é visível, não só pela chegada dos aparelhos, mas pela crescente oferta de conexão, incentivada inclusive pelo Estado brasileiro, através de programas de conectividade via satélite como o GESAC.

A relação das comunidades tradicionais brasileiras com as novas tecnologias da comunicação é um ponto que também merece destaque dentro do contexto brasileiro. A cada dia cresce o número de quilombos,  terreiros, aldeias indígenas que estão conectadas e fazendo uso da tecnologia em seu dia a dia.  Isso vem, aumentando as possibilidades de acesso a conhecimentos cada vez mais específicos, produzidos nas próprias comunidades, em processos que na sua maioria contam com a mediação de profissionais ligados diretamente ao governo ou à universidades. Nesse sentido voltamos a perceber a construção do ciberconhecimento em fluxos simultâneos frutos de  colaboração.

A avalanche de aparelhos somada a cultura audiovisual brasileira, esse talento incrível para gerar esse tipo de conteúdo, estabelece relações bem específicas das pessoas com esses objetos, mas também é possível perceber que há muita, mas muita gente criando essa necessidade a partir da influência consumista. Isso se prova por exemplo através do crescimento do numero de lojas especializadas em celulares, tablets, notebooks, e seus acessórios.  A relação brasileira com a tecnologia apresenta uma trajetória sempre ascendente, numa velocidade que impressiona. Dados do trabalho Demografia da população brasileira no Facebook: da problemática sóciocomputacional e às implicações de representatividade apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP nos diz:

Em 2005, 30% dos brasileiros eram usuários de computador e 24% de internet, passando em 2011 para 58% e 53% respectivamente.

Outros dados revelam a participação nas redes sociais mundiais:

Cerca de 91% dos usuários de internet atualmente utilizam este meio para se comunicar, sendo que uma das principais atividades desenvolvidas entre eles se constitui na participação em websites de redes sociais como o Facebook, Orkut e Twitter. A massiva inclusão observada da população brasileira em websites de redes sociais ocorre independente de classe social e nível de escolaridade do usuário. Atualmente o Facebook conta com mais de 51 milhões de usuários brasileiros, correspondendo a 67,37% dos usuários de internet e 25,44% da população total observada.

Esses dados de 2010, nos mostram a  importância que esses objetos técnicos adquiriram na vida das pessoas no Brasil,  e interessante também é observar a criatividade brasileira lidando com movimentos alternativos de apropriação tecnológica que integram a cultura de uso à prática da bricolagem. Um bom exemplo é a rede metareciclagem.org que se articula pela internet e possui nós em diversos pontos do país se espalhando essencialmente como idéia e prática diante dos impactos promovidos por essas tecnologias que vão desde o influxo de informação, na medida em que não existe  entre as pessoas, efetivamente, uma cultura de busca por exemplo; a enorme quantidade de conteúdo sem grande relevância estética, cultural ou política; até os impactos ambientais, promovidos pela obsolescência programada, incentivada pela indústria e abraçada por brasileiros e brasileiras.

PRA CONTINUAR A CONVERSA

É interessante que a crítica sobre as novas tecnologias da comunicação se faça a partir do reconhecimento de suas características, mas também é importante reconstituir a trajetória da dinâmica de elaboração de técnica e tecnologia na história da humanidade, para entender que o momento histórico (mundial, talvez  o caso brasileiro seja ainda mais evidente), é único no sentido de promover o acesso à informação de maneira direta. Outros diversos e diferentes movimentos acompanham essa onda, como por exemplo a questão do conteúdo multimídia, que antes se aproveitava dessa dádiva da publicação possível, mas agora, deixa de ser produzido e “uploadado” para ser produzido diretamente no ambiente web. É produzido também em maquinetas móveis, leves, que filmam em 4k (altíssima resolução). É necessário arguir que a comunicação pensada através de uma relação entre consciências unidas por um momento/assunto comum está sendo superada, pela experiência do novo design, que produz artefatos físicos e lógicos com memória e inteligência que se acoplam tanto ao corpo humano como a outros aparelhos.

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Referências:

Cultura digital.br / organização Rodrigo SAvazoni, Sergio Cohn. – Rio de Janeiro : Beco do Azougue, 2009. (Baixe gratuidamente o livro)

BENTLEY, Peter. Biologia Digital: Como a natureza está transformando nossa tecnologia e nossas vidas. trad. Toni Cavalheiro – São Paulo: Berkeley Brasil, 2002.

Apropriações Tecnológicas: emergência de textos, idéias e imagens do submidialogia #3 / organização Karla Schuch Brunet. – Salvador: EDUFBA, 2008.

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