Selfie: o seriado da sociabilidade midiática

Em 2014 o rede americana de televisão ABC lançou uma série intitulada “Selfie“, que conta a história de Eliza Dooley (Karen Gillan), uma jovem viciada em redes sociais e mais preocupada com a sua popularidade “na rede” do que com as pessoas mais próximas à ela. Eliza conhece Henry (John Cho), um especialista de marketing que não vive conectado, mas vive para o trabalho e considera fúteis o uso de redes sociais como: Facebook, instagram, etc.

A primeira (e única) temporada do seriado durou apenas 13 episódios. Porém, o que há de mais interessante em Selfie é tema abordado: o uso das redes sociais e, claro, a sociabilidade. Eliza, assim como muitos jovens da atualidade, é uma heavy user – intensa condumidora – das redes sociais e seu mundo está na palma das mãos, já que no smartphone ela tem tudo o que precisa. Fora da internet, Eliza não se importa em saber quem são os seus colegas de trabalho, ou conhecer melhor o rapaz com quem se relaciona, ou construir um bom relacionamento com seus vizinhos. O que realmente importa são os seus seguidores do twitter e instagram (que não podem deixar de segui-la sem que ela faça um escarcéu). Mesmo tomando conta dos exageros (próprios de sitcoms), é preciso lembrar que as características da personagem passam a falsa ideia de que heavy users são isolados do mundo, e

Sabemos, pelos estudos em diferentes sociedades, que a maior parte das vezes os utilizadores de Internet são mais sociáveis, têm mais amigos e contactos e são social e politicamente mais activos do que os não utilizadores. Além disso, quanto mais usam a Internet, mais se envolvem, simultaneamente, em interacções, face a face, em todos os domínios das suas vidas. (CASTELLS, Sociedade em Rede)

Quando houve a disseminação da internet e foi criada a ideia de que as pessoas “ficariam isoladas do mundo ao seu redor” ou “poderiam ser enganadas por pessoas com falsas identidades”, não levaram em consideração que o virtual é uma reprodução das relações já existentes no real, por meio de mídias digitais, porém, com seus próprios códigos e estuturas.

Na etimologia da palavra, sociabilidade vem de sociabilis (sociare) e itatem (itas) e significa “a qualidade ou condição de associar-se de maneira próxima”. A sociabilidade digital é, então, a associação das pessoas umas com as outras através dos meios digitais. Essa associação é um caminho natural do homem, que faz isso desde a formação dos primeiros grupos nômades na pré-história. Na verdade, o que acontece na atualidade é que o uso da internet potencializa a sociabilidade,  “tanto à distância como no ambiente da comunidade local. As pessoas ligam-se e desligam-se da rede, mudam de interesses, e, além disso, mudam de companheiros on-line quando querem. ” (FREITAS)

Mas o problema de Eliza não é a conexão. É o distúrbio da hiperconexão, também conhecido como iDisorder (em homenagem ao iPhone) nos Estados Unidos. A personagem usa o celular quase como uma extensão do seu corpo, e seus perfis da rede social são formas de suprir a carência causada pela solidão. A imagem que ela tanto luta para manter confere a ela um status e alimenta o seu ego. Por outro lado, as relações superficiais de Eliza com seus seguidores e amigos do Facebook fazem com que ela continue sozinha, não crie fortes laços com as pessoas mais próximas e não perceba o mundo ao seu redor por achá-lo desinteressante. Eliza não precisa ser segura, bonita, simpatica, amigável, e rica. A ela basta parecer ser tudo isso, para que os seus “lovers” continuem idolatrando-a.

Aqui, podemos lembrar do “Principe” de Maquiavel, já que é mais importante parecer ser do que ser. As pessoas fazem isso o tempo inteiro: falamos, compartilhamos, vestimos aquilo que formará a imagem que queremos que tenham de nós. Pode ser que não vivamos em função disso como Eliza, mas as redes sociais nos dão a oportunidade de editar a nossa identidade, selecionar aquilo que queremos se seja mais (ou menos) relacionado a nós. É disso que a internet tem se apropriado nos últimos anos para melhores resultados no Marketing Digital: as nossas preferências, gostos, inclinações, interesses, etc.. São esses interesses expostos (por cliques, principalmente) que permitirão que ferramentas de anúncio nos classifiquem como uma tribo específica que será mais impactada por um tipo de comunicação.

Falando em produção de conteúdo para redes sociais, let me take a #Selfie.

Para mais:

ROSEN, Larry D. iDisorder: Understanding Our Obsession with Technology and Overcoming Its Hold on Us (Amazon)

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REFERÊNCIAS:

CASTELLS, Manuel. Sociedade em rede: Do conhecimento à Política.

FIQUEIREDO, Giovanna Santos. As redes sociais na era da comunicação interativa. 2009 ISSU

FREIRAS, Rafael. Sociabilidade, Tecnologia da Internet e Comunicação. Observatório de Imprensa.

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