Polegarzinha: Um breve comentário.

Não, não se trata da história da menina que tinha o tamanho de um dedo polegar.

Michel Serres – O filósofo entusiasta

“Polegarzinha” é um livro do Michel Serres, filósofo, professor de Stanford e membro da Academia francesa desde 1990. O livro é originário de um discurso do mesmo em 2011 à Academia Francesa e trata da nova geração, sua relação com as mídias, e a nova configuração da sociedade construida nesse contexto por esses novos homens e mulheres que são carinhosamente chamados de polegarzinhos. O apelido vem do uso dos celulares, smartphones, e teclados que caracterizam uma geração que como diz o próprio autor, “vive uma outra história”, “não fala mais a mesma língua”, “não tem mais a mesma cabeça” e “não habita o mesmo espaço” que os seus ancestrais.

Ao ler Polegarzinha, é difícil não achar que esse simpático senhor é um verdadeiro entusiasta. A forma como descreve as ações da nova geração, se assemelha a de um avô que observa as potencialidades do seu netinho e fica simplesmente encantado com isso, achando maravilhoso que o pequeno possa ser muito mais do que aquilo que ele pensou. (Por isso, algumas pessoas acham que o Serres é frustrado com sua própria geração, mais “limitada” que a atual. Apesar desse pensamento existir, é claro no texto que o autor mostra que houve uma mudança estrutural da sociedade, algo mais próximo ao que Henry Jenkins fala sobre a convergência).

Michel Serres fala sobre jovens que não tem a mesma relação com os acontecimentos nem com as mídias antigas como tinham as gerações passadas. A forma de pensar (em relação a imaginação, raciocínio, pensamento político, etc) difere muito do que acontecia há decadas. Apesar de as mídias digitais trazerem em si características das mídias precedentes, elas tem uma configuração própria que modificou a nossa maneira de consumir informação, de lidar com o aparelho, de seguir mentalmente uma linha de pensamento. Temos diante de nós, em rede, um sistema praticamente cerebral (no sentido de processamento, memória, imaginação) muito mais potente que o nosso. A criação da polegarzinha está na combinação das informações que são adquiridas na rede – uma vez que a informação não está mais concentrada em centros nem em espaços físicos, mas está dispersa no ciberespaço. No livro, é feita uma analogia entre a Polegarzinha e o São Dinis de Paris, bispo que foi canonizado porque, após seu martírio por degolamento, ele levantou-se (diz a tradição) e continuou caminhando, até chegar à sua igreja, onde morreu. A cabeça da polegarzinha estaria então em um sistema fora dela, em rede, e a ela caberia processar as informações.

J.A.R.V.I.S, em Os Vingadores 2 – A Era de Ultron, é uma inteligencia artificial, um software complexo (por ter inúmeras instruções inscritas nele). É uma cabeça de Polegarzinha.

Além das mudanças em relação aos meios de comunicação e ao ensino, temos também as mudanças da sociedade de “Polegarzinhos”. Se trata de uma estrutura com um menor grau de hierarquização, na qual todos os lados tem direito de opinar para a melhoria dos serviços (aliás, é bom lembrar que a Polegarzinha já nasceu em um tempo em que esse setor, o de serviços, já havia crescido na economia, e não mais os setores primário e secundário como há decadas). É também nessa sociedade que os valores sustentáveis (menos danosos à economia, ao meio ambiente e à sociedade), não importando apenas as ações em si, mas a relevância dessas ações para uma sociedade melhor agora e para as gerações seguintes.

Porém, nem tudo na Polegarzinha são belezas. As diferenças de tempos também geram conflitos. Na nossa geração se acha (geralmente) muito sabedora de tudo. Pensando bem, isso é muito mais próprio do jovem do que de uma geração específica. Por estarmos no período da vida destinado a descoberta, queremos mostrar que estamos certos, que os outros (principalmente os mais velhos) não entendem a lógica da vida moderna, que nossos “amigos” são sim nossos amigos, que podemos sim “ficar” com uma pessoa que conhecemos pelo Tinder, e que nem as gerações passadas podem nos dar exemplo de uma vida boa para todos, por isso, é a nossa vez de tentar algo novo, diferente.

O livro trata de muito mais coisa, claro. Mas não cabe dizer aqui porque a) raramente gostam de spoilers; b) não caberia falar sobre todos os temas abordados num post de blog, pois, eles merecem muito mais que isso, merecem uma boa leitura do texto; c) como diz o título da postagem, este é apenas um breve comentário.

No geral, o Michel Serres pode exagerar, mas ele não mente. Podemos perceber muitas coisas semelhantes a nossa juventude (ou, pelo menos, ao que a nossa juventude gostaria de ser se tivesse mais tempo/dinheiro/disposição, etc). O texto é bem fácil de ler. Vale a pena e pode ser lido em algumas horas. Infelizmente, não está disponível online. Se puder, leia! Você pode se descobrir sem um(a) pequeno(a) polegar.

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Para mais sobre Michel Serres

Michel Serres no Roda Viva – Vídeo

Palestra: O futuro da Universidade – A Universidade do futuro – Vídeo

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Selfie: o seriado da sociabilidade midiática

Em 2014 o rede americana de televisão ABC lançou uma série intitulada “Selfie“, que conta a história de Eliza Dooley (Karen Gillan), uma jovem viciada em redes sociais e mais preocupada com a sua popularidade “na rede” do que com as pessoas mais próximas à ela. Eliza conhece Henry (John Cho), um especialista de marketing que não vive conectado, mas vive para o trabalho e considera fúteis o uso de redes sociais como: Facebook, instagram, etc.

A primeira (e única) temporada do seriado durou apenas 13 episódios. Porém, o que há de mais interessante em Selfie é tema abordado: o uso das redes sociais e, claro, a sociabilidade. Eliza, assim como muitos jovens da atualidade, é uma heavy user – intensa condumidora – das redes sociais e seu mundo está na palma das mãos, já que no smartphone ela tem tudo o que precisa. Fora da internet, Eliza não se importa em saber quem são os seus colegas de trabalho, ou conhecer melhor o rapaz com quem se relaciona, ou construir um bom relacionamento com seus vizinhos. O que realmente importa são os seus seguidores do twitter e instagram (que não podem deixar de segui-la sem que ela faça um escarcéu). Mesmo tomando conta dos exageros (próprios de sitcoms), é preciso lembrar que as características da personagem passam a falsa ideia de que heavy users são isolados do mundo, e

Sabemos, pelos estudos em diferentes sociedades, que a maior parte das vezes os utilizadores de Internet são mais sociáveis, têm mais amigos e contactos e são social e politicamente mais activos do que os não utilizadores. Além disso, quanto mais usam a Internet, mais se envolvem, simultaneamente, em interacções, face a face, em todos os domínios das suas vidas. (CASTELLS, Sociedade em Rede)

Quando houve a disseminação da internet e foi criada a ideia de que as pessoas “ficariam isoladas do mundo ao seu redor” ou “poderiam ser enganadas por pessoas com falsas identidades”, não levaram em consideração que o virtual é uma reprodução das relações já existentes no real, por meio de mídias digitais, porém, com seus próprios códigos e estuturas.

Na etimologia da palavra, sociabilidade vem de sociabilis (sociare) e itatem (itas) e significa “a qualidade ou condição de associar-se de maneira próxima”. A sociabilidade digital é, então, a associação das pessoas umas com as outras através dos meios digitais. Essa associação é um caminho natural do homem, que faz isso desde a formação dos primeiros grupos nômades na pré-história. Na verdade, o que acontece na atualidade é que o uso da internet potencializa a sociabilidade,  “tanto à distância como no ambiente da comunidade local. As pessoas ligam-se e desligam-se da rede, mudam de interesses, e, além disso, mudam de companheiros on-line quando querem. ” (FREITAS)

Mas o problema de Eliza não é a conexão. É o distúrbio da hiperconexão, também conhecido como iDisorder (em homenagem ao iPhone) nos Estados Unidos. A personagem usa o celular quase como uma extensão do seu corpo, e seus perfis da rede social são formas de suprir a carência causada pela solidão. A imagem que ela tanto luta para manter confere a ela um status e alimenta o seu ego. Por outro lado, as relações superficiais de Eliza com seus seguidores e amigos do Facebook fazem com que ela continue sozinha, não crie fortes laços com as pessoas mais próximas e não perceba o mundo ao seu redor por achá-lo desinteressante. Eliza não precisa ser segura, bonita, simpatica, amigável, e rica. A ela basta parecer ser tudo isso, para que os seus “lovers” continuem idolatrando-a.

Aqui, podemos lembrar do “Principe” de Maquiavel, já que é mais importante parecer ser do que ser. As pessoas fazem isso o tempo inteiro: falamos, compartilhamos, vestimos aquilo que formará a imagem que queremos que tenham de nós. Pode ser que não vivamos em função disso como Eliza, mas as redes sociais nos dão a oportunidade de editar a nossa identidade, selecionar aquilo que queremos se seja mais (ou menos) relacionado a nós. É disso que a internet tem se apropriado nos últimos anos para melhores resultados no Marketing Digital: as nossas preferências, gostos, inclinações, interesses, etc.. São esses interesses expostos (por cliques, principalmente) que permitirão que ferramentas de anúncio nos classifiquem como uma tribo específica que será mais impactada por um tipo de comunicação.

Falando em produção de conteúdo para redes sociais, let me take a #Selfie.

Para mais:

ROSEN, Larry D. iDisorder: Understanding Our Obsession with Technology and Overcoming Its Hold on Us (Amazon)

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REFERÊNCIAS:

CASTELLS, Manuel. Sociedade em rede: Do conhecimento à Política.

FIQUEIREDO, Giovanna Santos. As redes sociais na era da comunicação interativa. 2009 ISSU

FREIRAS, Rafael. Sociabilidade, Tecnologia da Internet e Comunicação. Observatório de Imprensa.

Oi, quer TC?

– Amggggg!!!
– Oi!! Saudades <3- Tbm. Deixa eu perguntar: Você já ouviu falar num negócio chamado “Chatroulette“?
– Não, o que é?
– É um site que a gente usa pra ficar falando com desconhecidos.
– E qual o intuito?
– Falar, ué. Com desconhecidos. Com pessoas que você provavelmente nunca encontraria na vida. E depois, talvez, nunca mais encontrar na vida.
– Hmmm… LEGAL! Vou ver. Tem pornografia lá?
– Pelo menos pelo que eu vi até agora não. Só falei com pessoas normais, olhando pra câmera de uma forma normal, falando sobre coisas normais.
– Massa. Vou entrar nisso aí.
– Tô conversando com um sul-africano. LOL. Adicionei ele no Facebook.
– Oxiii! Ta doida? Fica falando com essa gente desconhecida assim! Você nem sabe se ele é sul-africano mesmo.
– Falou a menina que tá namorando um cara que conheceu num grupo de Whatsapp… anyway, eu stalkeei ele e o local que ele trabalha. Ele tá nas fotos, etc, etc. E é muito gente boa.
– Tão tá. Mas vou sair desse negócio. Começou a aparecer gente indecente pra mim.
– HAHAHA! Pra mim não apareceu nada. Acho que o problema é com você e não com o site hahah

O diálogo posto acima é inspirado em uma conversa de Whatsapp. Particularmente, ainda estranho um pouco as formas de relação entre as pessoas da minha geração. Sim, nós muitas vezes nos conhecemos assim. O número de pessoas que conheci por internet é algo fantástico: tem a menina do twitter, que mora lá no Rio Grande do Norte; tem o amigo de uma amiga, que eu nem conheço pessoalmente mas sei que é gente boa pra caramba; tem o cara que eu conheço há anos mas que só encontrei esse ano e nem parecia que nunca tínhamos nos visto.

O problema de tudo é minha mãe. Minha mãe e minha tia. Elas vivem dizendo pra eu não falar com estranhos porque “Olha só o que aconteceu com essa mulher que está passando aqui no Fantástico! Ela ficou conversando com um cara que disse a ela que era de Miami, que tinha tudo, aí ela foi lá, se apaixonou e ele deu um golpe nela. Tá vendo que isso por acontecer com qualquer um? Cuidado! Não fica aí contando nada de sua vida nessa internet não, que você não sabe com quem você tá lidando… A gente não conhece ninguém…”. Conhecer… está aí uma palavra interessante. O que seria conhecer?

Se lemos as definições de conhecer e conhecimento no dicionário online, podemos dizer que conhecer uma pessoa é reconhecer, distinguir, ter informações sobre alguém, através da experiência de uma relação. Ora, nós nos relacionamos uns com os outros pela internet. Raquel Recuero fala no seu livro “Redes Sociais na Internet” que as ferramentas de Comunicação Mediadas pelo Computador (CMC):

proporcionaram, assim, que atores pudessem construir-se, interagir e comunicar com outros atores, deixando, na rede de computadores, reastros que permitem o reconhecimento dos padrões de suas conexões e a visualização de suas edes sociais através de seus rastros. (RECUERO, Raquel. 2009)

Como ela explica no livro, a nossa identidade é construida e expressa na rede. Esses rastros que deixamos durante a construção e expressão do nosso eu, permite que nós nos conheçamos. Eu já estive, um dia sequer, com a menina do twitter que mora lá no Rio Grande do Norte? Ainda não. E ela é minha amiga? Sim. E isso não é estranho. Tem gente com quem convivo todos os dias, mas que não passam de estranhos para mim.  “Mas é importante ter uma relação face a face”. Concordo plenamente. Existe um conhecimento físico, expressional, reacional, que nós adquirimos no contato “real”. É muito comum que pessoas que se conheceram na rede queiram se encontrar, e tenham planos para tal. Pode ser perigoso? Pode, bastante.

Uma série de TV famosinha que fala sobre relacionamentos virtuais é Catfish, atualmente transmitida pela MTV. “Catfish” é um termo usado para designar pessoas que criam perfis falsos online com o intuito de fazer com que pessoas se apaixonem por elas (</3). A série, então, marca encontros de casais que se relacionam virtualmente mas que não se conhecem pessoalmente, a fim de ver se um dos dois é um Catfish ou não. A parte legal é que são casos reais que mostram dificuldades e soluções reais (e que não são só desastres).

Segundo Donath (1999) a  percepção do Outro é essencial para a interação humana, e na ausência de informações que permeiam a comunicação face a face, as pessoas são julgadas e percebidas por suas palavras. Através dessas interações teremos as impressões, em parte construídas pelos atores e em parte percebidas por eles (Goffman, 1975).

Dá pra confiar? Dá… Não dá… Não sei. Ainda sou do tipo que não usa Tinder pra paquera. Mas também converso com gente que não conheço. O mais importante que tenho em mente é que uma rede social é feita por pessoas (atores) que se relacionam por uma rede tecnológica (não necessariamente de computadores), e existem pessoas de todo tipo. Mas quer uma dica? Não entra nessa de “amor ao primeiro click”. A primeira impressão pode sempre enganar.

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Bibliografia:
RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. 2009 – Disponível em: http://issuu.com/midia8/docs/socialmedia

O homem, a técnica e a tecnologia

Partindo da discussão que envolve as tags: técnica, informação, cultura, tecnologia, comunicação, objeto – é possível enxergar algumas dimensões da existência humana e perceber que a dureza em determinadas questões certamente não indicam o caminho da superação e desenvolvimento da humanidade.  A discussão acerca desses temas é uma dessas, ela exige relativização e circulação entre os pontos de vista, para construção de um olhar que não estigmatize nenhum dos pensamentos envolvidos.  Continuar lendo